O Jornalismo como invenção permanente: novas práticas, novos atores


IX Colóquio Brasil-França de Ciências da Comunicação

INTERCOM-SFSIC

Curitiba, setembro 2009

Estudos Comparados

Avanços da pesquisa em Comunicação no Brasil e na França

Relato sobre a experiência da Rede de Estudos sobre Jornalismo (REJ)

www.surlejournalisme.com

O Jornalismo como invenção permanente: novas práticas, novos atores

Zélia Leal Adghirni ( Universidade de Brasilia- UnB)

Denis Ruellan (Universidade de Rennes 1)

e 27 pesquisadores de nove grupos de pesquisa da REJ[1]

Resumo

A Rede de Estudos de Jornalismo (REJ) é um grupo de pesquisa interdisciplinar e internacional, fundado em 2002, com o objetivo de estudar a produção e a mediação da informação jornalística. Os estudos organizados em torno do jornalismo e das novas tecnologias já existiam desde o final dos anos 1990 mas o grupo só foi constituído formalmente após muitos encontros e debates sobre o tema. A rede integra atualmente 27 pesquisadores ligados a universidades de diferentes países: França, Brasil, Canadá, México e Ilha da Reunião.

No Brasil, o projeto é desenvolvido dentro do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) como parte das atividades da linha de pesquisa « Jornalismo e Sociedade », e está inscrito no CNPq com a denominação SOJOR ( Sociedade e Jornalismo).

A originalidade do grupo vem do fato de ser internacional, cooperativo e “francófono”. Tem por princípio a associação de pesquisadores que colocam em comum uma dinâmica científica com o objetivo de estudar conjuntamente e, num tempo relativamente curto, fenômenos relevantes cuja observação e análise demandam meios muito importantes e inacessíveis à maioria dos pesquisadores. O grupo realiza um encontro anual, publica artigos em revistas científicas, editou dois livros e mantém uma página na internet : www.surlejournalisme.com

Plavras-Chaves: Jornalismo- Sociedade- Mutações-Tecnologias

Résumé

Le Réseau d’Etudes de Journalisme (REJ) est un groupe de recherche interdiscipilinaire et internationale fondé en 2002 dans le but d’étudier la production et la médiation de l’information journalistique.

Le champs d’études relatif au journalisme et aux nouvelles technologies existait déjà à la fin des années 1990, mais le groupe n’a pris forme qu’à la suite de nombreuses rencontres et discussions sur le sujet. Le réseau regroupe à ce jour 27 chercheurs rattachés à des universités de divers pays: France, Brésil, Canada, Mexiqueet Ile de la Réunion.

Au Brésil, le projet est developpé au sein du Programme de l’Ecole Doctorale de la Faculté de Communication de l »Université de Brasilia (UnB), dans le cadre de la recherche en « Journalisme et Societé ». Le projet est inscrit au CNPQ (équivalent brésilien du CNRS) sous le nome SOJOR (Societé et Journalisme).

La spécificité du groupe vient du fait qu’il est international, coopératif et francophone. L’axe central de l’equipe consiste à rassembler des chercheurs qui partagent une dynamique scientifique ayant pour but d’étudier conjointement et, au long d’une période relativement courte, des phénomènes significatifs dont l’observation et analyse exigent des moyens importantes et inaccessibles pour la plupart des chercheurs.

Hormis la rencontre anuelle, le groupe publie des articles dans des revues scientifiques et a édité deux livres, et dispose également d’une page web: www.surlejournalisme.com

REJ: Origens e objetivos

A unidade da rede reside no programa de pesquisa desenvolvido. Os projetos são elaborados coletivamente com o objetivo de construir hipóteses e de definir um arcabouço teórico que permita a aproximação de abordagens disciplinares diversas ( economia, sociologia das organizações, gestão, sociologia dos usos, sociologia das profissões, ciências da linguagem, etc.) e a aplicação de metodologias múltiplas ( campo empírico e corpus, etnografias e estatísticas, etc.)

Os pesquisadores pertencem a laboratórios diferentes[2] e recebem financiamento de vários organismos internacionais, entre os quais o CNRS, União Européia e Governo da Bretanha. No Brasil, recebeu apoio da Capes, CNPq e Finatec.[3] Os resultados dos trabalhos já foram apresentados em diversos colóquios internacionais e publicados em revistas especializadas. Periodicamente, quando o grupo considera encerrada uma etapa da pesquisa ( entre dois e três anos) o grupo lança uma publicação sendo que a última traz um texto do grupo da FAC/UnB (SOJOR)[4].

Neste âmbito internacional e cooperativo, os pesquisadores conservam sua autonomia de recursos e de funcionamento mas compartilham fontes bibliográficas, reuniões de trabalho, publicações, comunicações e uma identidade coletiva.

Desde sua fundação já foram realizadas vários encontros, quase todos na França: Universidade Rennes 1 ( Lannion), Universidade Paul Cézanne ( Aix en Provence), Universidade de Strasbourg, Universidade de Paris 2, Universidade de Lyon 2, Universidade de Laval, Quebec ( Canadá) na Universidade de Guadalajara, México.

A REJ , como grupo de pesquisa científica, oferece a seus membros a possibilidade de reunir suas competências e seus interesses para :

– mobilizar meios de pesquisa e de circulação de pessoas e de trabalhos

– realizar programas de pesquisa cuja dimensão não poderia ser assumida apenas por um laboratório universitário ou por pesquisadores isolados

– favorecer a dimensão comparativa das pesquisas, em particular, em nível internacional

– compartilhar os dados e informações recolhidos

– reunir-se para discutir com os membros do grupo de maneira regular e periódica

-publicar

– constituir uma identidade coletiva dentro de uma coletividade

Objetos e estratégias

Os primeiros resultados do programa de cooperação interdisciplinar e internacional de pesquisa sobre o tema específico “jornalismo” foram divulgados em 2005, com a publicação da obra Le journalisme em invention- nouvelles pratiques, nouveaux acteurs [5]. O livro reúne cinco artigos de 13 autores, organizados por laboratórios O segundo livro , reunindo seis artigos de 18 pesquisadores, saiu em 2008 com o título Figures du Journalisme, pela Universidade de Laval/Quebec[6]. Esta obra completa o ciclo de pesquisa iniciado em 2002 pela Rede de estudos sobre o jornalismo (REJ) cujo tema era “Hibridação e criação de gêneros midiáticos”. Se o primeiro volume centrava sua atenção sobre a França, o segundo procura mostrar os fenômenos ocorridos no jornalismo em outros lugares do planeta, entre os quais o Brasil e as ilhas do Oceano Indico. Esta diversidade, ligada a geografia, à história, às diferenças culturais e sociais, multiplica os objetos, os enunciados, as estratégias e as “concepções nacionais” que devem ser levadas em conta para estudar o jornalismo, explicam os organizadores da obra.

No prefácio do primeiro volume os organizadores explicam as origens e os objetivos da REJ, falando em nome do grupo.

O projeto fundamenta suas raízes em diferentes terrenos de pesquisa individuais e coletivas que se deslocam e se reorganizam dentro de uma perspectiva acumulativa e integradora, com a ambição de contribuir para dar visibilidade aos fenômenos observados no campo das transformações e das práticas e da produção jornalística.

Para compreender o sentido desta pesquisa é importante salientar a diversidade dos objetos e das abordagens bem como a convergência dos questionamentos na apreensão do jornalismo.

O estudo do jornalismo como objeto não estava no centro de interesse de todos os pesquisadores no inicio. Ele tornou-se comum depois de muitas interrogações sobre a pertinência de uma noção que cobrisse todos este fenômenos.

A verdade é que os membros do grupo, cada um de seu jeito, cada um em sua universidade e em seu país de origem, já tentavam desenhar os contornos de uma identidade profissional dos jornalistas. Alguns pesquisadores tentavam estabelecer correlações entre as estratégias das empresas de mídia ou de outras instituições e as práticas profissionais. Outros procuravam entender a relação entre as transformações das práticas com as metamorfoses dos territórios profissionais e o desenvolvimento das tecnologias da comunicação. Outros ainda, como Ringoot e Utard examinavam as articulações entre as práticas discursivas ou processos semióticos e os dispositivos técnicos da produção. Havia ainda aqueles que questionavam os papeis dos públicos e das novas praticas de produção.

“Mas o destaque conferido a este centro de gravidade comum mascarava as variações dos objetos e das abordagens dando aos estudos de jornalismo uma configuração cubista em vez de uma visão de perspectiva”, afirmam os autores na introdução da obra.

Arcabouço Teórico

A REJ entende que a tradição dos estudos de jornalismo é antiga mas sempre renovada pela reativação dos desafios ligados às transformações sociais, políticas, ideológicas, culturais e tecnológicas que trabalham esta prática social.

Observamos que é grande o número de jovens pesquisadores que se debruçam sobre este terreno, o que revela a vitalidade permanente do tema no mundo acadêmico.

Por outro lado, observamos que estas pesquisas são ainda muito dispersas, e marcadas por clivagens disciplinares fortes. Nesta área, a sociologia das profissões e das organizações, a sociologia política e a história da imprensa tem um peso desproporcional diante das ciências da linguagem que encontram dificuldades para valorizar sua pertinência. Constatamos ainda que as pesquisas que trazem uma abordagem econômica do jornalismo são praticamente inexistentes.

Por outro lado, a convicção íntima que têm uma missão a cumprir na sociedade a serviço de valores coletivos, leva os jornalistas a produzir seu próprio discurso que pretende legitimar um saber especifico sobre sua profissão.

Muitos trabalhos foram realizados ultimamente sobre este tema. Destacamos a contribuição de Erik Neveu ( 2001) sobre a sociologia do jornalismo. Ao recolher uma massa de informações empíricas sobre o campo do jornalismo ele contribuiu para relançar um movimento geral nas ciências humanas, passando de modelos estruturais para os estudos das interações sociais.

A REJ considera que estamos hoje diante de uma realidade mais fragmentada dentro da qual os interstícios entre os espaços parciais deixam mais livre a intervenção dos atores. “Abandonamos as grandes unidades imóveis a longo prazo na história para nos concentramos, na mesma linha de pensamento de Michel Foucault (1994), nos processos de descontinuidades, nos fenômenos emergentes de maneira aleatória,e nos “buracos negros” da história, bem como nos movimento que deslocam as linhas estáveis. O jornalismo se declina , portanto, no plural: existem jornalismos, jornais, informações e públicos.

A rede entende que estamos acostumados a dividir o jornalismo em pedaços e a tendência é colar as partes. Temos “a profissão”, o “discurso”, e a “função social”, que são algumas das entidades nas quais o jornalismo se identifica e se contrapõe a outras profissões, outros discurso e outras funções.

É pois dentro de um contexto intelectual variado que se inserem as pesquisas da REJ, dentro de um debate cientifico aberto.

Estudos Empíricos

Devemos a Denis Ruellan a iniciativa de reunir e organizar pesquisadores de horizontes tão diferentes para estudar as transformações na produção e na difusão da informação em nível local e regional ligadas ao desenvolvimento da internet numa primeira fase ( Thierry, Damian, Ringoot). Esta primeira etapa dava continuidade a primeira fase de pesquisa de Ruellan sobre a profissionalização do jornalismo (1997) mais tarde acrescentado à pesquisa conjunta com Daniel Thierry sobre os processos diferenciados de informatização das redações na imprensa local e seus efeitos sobre as práticas e sobre a identidade profissional dos jornalistas.

Nesta mesma época, o mundo acadêmico discutia a questão dos direitos autorais e a criação dos sites e portais das grandes empresas jornalísticas. Estávamos no final dos anos 1990. Nesta época, profecias alarmantes decretavam o fim do jornalista mediador. E até mesmo, o desaparecimento do jornalista enquanto profissional. Qualquer pessoa poderia criar seu site ou portal e tornar-se celebridade de um dia para outro. Estudos posteriores provariam que apenas se tornavam célebres na rede quem já era célebre na mídia tradicional. Ou seja, uma credibilidade baseada na credibilidade de um veículo, na legitimidade de um profissional conquistada ao longo do tempo, de um trabalho árduo de compromisso com a verdade, com a apuração dos fatos.

Na época, os jornais de referência, aqui como na França, desconfiavam da internet. Enquanto o Correio Braziliense esmerava-se na construção de um site de noticias apuradas em tempo real, o cotidiano Ouest –France , maior jornal da França em tiragem hesitava em identificar-se na web, preferindo inverter sua marca para France-Ouest. “Como vamos colocar em risco nossa marca ? Não podemos oferecer aos nosso leitores um produto que não dominamos. Nem sabemos se a internet é uma mídia “, dizia o diretor da empresa, Bernard Boudic, em entrevista, na época, para esta pesquisa.

Foi o início da integração dos pesquisadores brasileiros da UnB ao grupo internacional e francófono ainda não estruturado como Rede de Estudos de Jornalismo[7](REJ). A mobilização dos pesquisadores implantados em diferentes regiões da França, do Quebec e da Reunião, levou a realização das primeiras monografias sobre as realidades locais para identificar os fenômenos em curso. Organizávamos então nosso primeiro colóquio na universidade de Rennes (Lannion) reunindo professores, alunos e profissionais da área de comunicação. Nesta comparação, constatávamos que não existia um processo uniforme e linear, mas, situações diversificadas, diante de configurações determinadas pelas culturais locais e nacionais e pela evolução das relações a emergência das redes.

As pesquisas transversais revelaram que, se, em alguns lugares as novas alianças se faziam entre as instituições de mídia e as coletividades locais ( no caso francês, entre comunicação governamental, sites cidadãos das prefeituras , e entidades da sociedade civil), em outros a divisão dos papeis entre fontes e mediadores ( jornalistas) se mantinha inalterada. Em outros lugares ainda, surgiam outros atores dando uma nova visibilidade a uma certa sociabilidade entre grupos de jovens ou não, até então desconhecidos. Novos grupos tronavam-se autônomos na web, sendo que as próprias organizações institucionais criavam seus sites e seus veículos para divulgar informações, dispensando o trabalho tradicional da grande mídia. Surgia aquilo que, mais tarde, o pesquisador brasileiro Francisco Sant’Anna chamaria de mídia das fontes [8] um novo ator na cena jornalística brasileira.

Constatamos que as novas tecnologias não são um motor de transformações por si só, mas um novo espaço e eventualmente e um acelerador, destas transformações.

Passada esta fase, o grupo entrou em outro período mais ou menos determinado pela conjuntura econômica. Se as empresas de mídia conseguiram vencer os desafios da internet, adaptando-se a elas a muito custo humano e operacional, descobriu-se que a internet não era uma salvadora da mídia nem uma cova para enterrar o jornalismo. Mas nossa reflexão contribuiu para tornar visível os movimentos que trabalham o conjunto da produção e da difusão da informação: a extensão das áreas de intervenção além da expertise jornalística em direção da gestão da informação pública ou promocional, a elasticidade da função jornalística entre a informação e a produção de conteúdos; a missão da informação pela necessidade de descobrir o destinatário a captar; a coexistência temporal do fluxo de atualidade e do estoque de arquivos; a fragmentação e a instabilidade crescente dos públicos.

Os diferentes pontos de vista adotados pelos pesquisadores da REJ sobre este objeto revelaram as diversas modalidades sobre as quais as transformações se manifestam. Isto nos levou a concluir que estávamos diante de um novo fenômeno, ou seja, que estávamos diante de um embaralhamento das fronteiras até então estabelecidas entre estratégias, práticas, identidades, produtos e enunciados.

Esta noção de embaralhamento dos campos nos levou a dar um passo em direção a uma nova fronteira. Ou seja, a ultrapassagem de uma fronteira para constatar que, de fato, não havia fronteiras. Estávamos diante de um jornalismo híbrido, sem contornos nítidos, onde as fronteiras tradicionais eram transgredidas e apropriadas por outros campos da comunicação. Não apenas o jornalismo mas todas a práticas da mediação e da mediatização, bem como a produção cultural, o papel dos atores, das organizações públicas e privadas, dos receptores, dos públicos, estavam “contaminadas” pela confusão das fronteiras tradicionais. Tudo isso se misturava numa paisagem fosca, sem contornos nítidos. Foi quando o pesquisador canadense François Demers propôs uma formulação inicial desta segunda fase do programa de investigação como um estudo da “mouvance entre les codes d’identification ( et leurs marqueurs) des differents contenus offerts par les medias”.

Ou seja, ele postulava a abertura de uma frente de estudos que se chamaria “hibridação de gêneros” ( informação, publicidade, ficção e promoção) e a mudanças nos códigos de identidade destes produtos. Demers se referia às pesquisas realizadas na universidade de Laval (Quebec) com relação às transformações econômicas das empresas de mídia ( mais amplamente sobre as evoluções sócio-politicas e culturais das sociedades contemporâneas) e as modificações nos conteúdos propostos pelas mídias.

Os pesquisadores do Quebec analisavam estas transformações em termos de convergência na produção dos contéudos midiáticos e na emergência de uma nova identidade de produtores de mensagens publicas.

Jornalismo híbrido

Nesta fase, a pesquisa do grupo decidiu assumir uma nova forma, restringindo o objeto e expandindo o território de observação. Restrição do objeto porque os produtos de informação nas mídias tornaram-se o lugar a partir do qual eram observadas as transformações qualificadas de brouillage: resultado de um processo de produção, os conteúdos da mídias eram considerados como sintomas de uma mutação profunda das lógicas estratégicas e identitárias; expansão do território de observação porque a informação aí encontrava uma definição diferenciada em relação a publicidade, a ficção e o entretenimento e também porque as mutações constatadas pareciam redefinir as respectivas das diferentes práticas discursivas. Este duplo movimento permitiu integrar como pertinentes a este quadro de pesquisa os objetos empíricos e os terrenos próprios a cada pesquisador individualmente. Neste bojo entraram os estudos de jornalismo online, os jornais de empresas, os sites pessoais tipo blogs a imprensa feminina e as mídias corporativas brasileiras ( estudos do grupo da UnB que foram considerados como espaços de manifestações das transformações que estavam sendo observadas).

Os primeiros estudos dos diferentes terrenos conduzidos sob a hipótese da embaralhamento dos gêneros midiáticos revelaram rapidamente o período de uma interpretação normativa dos fenômenos observador. A noção de código remetia a um conjunto de normas estabilizadas delimitando universos de discursos separados. A noção de gênero designava unidades discursivas imutáveis articuladas sobre funções sociais distintas e até mesmo contraditórias.

As incertezas sobre esta proposta e este método levou o colega francês Jean Michel Utard a propor que se abandonasse o estudo da construção de um sistema de gêneros de discurso para se dedicar a uma descrição de formas discursivas que remetessem a processos de produção identificados . Por outro lado, Nicolas Pelissier mostrava o interesse que havia em estabelecer uma relação entre a diversificação dos produtos jornalísticos e as práticas, independente dos processos que as diferenciavam de outros discursos midiáticos ou de outras produções culturais.

A focalização sobre o jornalismo surgiu como necessária e suficiente para descrever a formação de novos objetos e de novas praticas midiáticas.

Foi quando o grupo incorporou a noção de formação discursiva trazida de Foucault por Roselyne Ringoot, que ser revelou heurística. Enquanto o conceito de paradigma, de campo, de profissão, de discurso, levavam os pesquisadores a situar na ruptura, na ilegitimidade ou no desvio as mutações observadas, a noção de formação discursiva autorizava uma aproximação das diferenças. Mesmo que a idéia de formação evoque limites que contém um conjunto de produções discursivas, a noção não fecha seu campo numa origem única, não mais enunciativa que temática ou institucional. Se a formação discursiva inclui o jornalismo profissional, é como uma forma entre outras, dominante sem dúvida, de uma prática social mais generalista.

Esta hipótese, que consiste em postular uma identidade comum a produções discursivas respondendo a lógicas diferentes, colocava o desafio dos motivos da escolha dos terrenos de investigação. A proposta não fechava em todos os territórios de pesquisa envolvidos. Como interpretar os gêneros jornalísticos na Reunião onde a profissão de jornalista se exerce nas mídias profundamente inseridas no contexto local e onde, fontes e públicos se sobrepõem em uma sociedade de interconhecimento ? Como analisar o caso do Brasil onde informação e comunicação se confundem nas mídias das fontes?

As fontes, as práticas e os públicos

As aparentes contradições e paradoxos de nossas hipóteses levaram os organizadores da primeira obra publicada[9] a uma certa prudência. Como podemos constatar pelos trabalhos apresentados, a imprensa feminina não era assim tão nobre, a imprensa gratuita era considerada uma arma contra a informação cidadã e os blogs pareciam irremediavelmente ancorados na esfera privada. Então surgiram os paradoxos. As revistas o e jornais populares caíram no gosto do público, a imprensa gratuita foi recebida calorosamente pela sociedade, a grande imprensa continua fazendo papel bonito mas os leitores desconfiam de sua credibilidade e os blogs são considerados como meios de informação legítimos.

Mas se estes jogos de legitimação podem significar índices de pertinência de nossas investigações, eles não são argumentos a favor de nossa hipotése. Ao contrário, a absorção na esfera legítima destas diferentes práticas oferece o risco de confundir com um modelo único, aquele que a profissionalização do jornalismo construiu.Nossa convicção é que o jornalismo e uma prática social de produção discursiva antes de ser uma profissão. Por isso criamos uma definição mínima do jornalismo como “uma prática sociodiscursiva colocando em interação três instâncias salientadas pela sociologia profissional: as fontes, as práticas, os públicos.

Mas o jornalismo é definido além da relação estável entre atores especiais e atividades distintas que fundam o mito da autonomia e da independência jornalística; As três instâncias são consideradas como pólos ou papeis podendo serem investidos por atores diferentes ou idênticos.

Esta concepção possibilita lançar um novo olhar sobre as práticas indiferenciadas ou, ao contrário, integrar a formação discursiva, que uma visão exclusivamente normativa, rejeita como não jornalística. Desta forma, o jornalismo feminino não pode ser reduzido a uma simples tematização da via social pelo discurso jornalístico mas deve ser pensada como uma prática específica inscrita nas identidades sócio-sexuais pré construídas. É o que mostra o estudo do discurso da intimidade em certos suportes qualificados de femininas onde as posições de testemunha, de especialista, de jornalista são investidas pelos mesmos atores, construindo assim modalidades especificas deste gênero. Da mesma maneira o jornalismo da imprensa gratuita não pode ser considerado ou caracterizado como uma renúncia a autonomia postulada pelos jornalistas mas como uma tentativa de levar em conta a fragmentação dos públicos e suas expectativas, e portanto, é necessária a segmentação de uma informação que, por ser generalista não deixa de ser universal. Mas são os blogs que manifestam com mais clareza essa confusão dos espaços íntimos e coletivos, dos gêneros factuais e de opinião e dos papeis onde cada um, é, ao mesmo tempo, tempo jornalista e público.

A medida que a pesquisa avançava, numa dialética entre o empírico e o teórico, o modelo explicativo se fechava na noção de formação para designar o conjunto de práticas e de produções diferenciadas.

A maturação coletiva destes estudos nos levou a refutar a tentação recorrente de reconstruir continuidades seguras. De modo particular, aquela que nos levaria a pensar a dispersão como difusão de um modelo a partir do centro. A demonstração, por Denis Ruellan ( 1993) de um flou constitutivo das fronteiras da profissão jornalística mostrou-se compartilhada pelos pesquisadores do grupo. Mas é a noção de dispersão na formação discursiva jornalística que vai tentar explicar as transformações ou as mutações observadas nas mídias sem trazer de volta os movimentos de tensão ou de submissão ao modelo profissional da prática jornalística.

O que esta noção pretende afirmar é que as novas práticas emergem de maneira dispersa, isto é, não ligadas a uma fonte única E o que esta noção interroga é a possibilidade de identificá-las como jornalísticas, independente das normas historicamente construídas. Não que estas não tenham suas razões sociais nem que o jornalismo, assim como ele se institucionalizou, não seja uma dimensão necessária da lógica democrática. Mas ele não pretende, sozinho, ocupar um espaço que transborda um território ou uma função para se estender a outras práticas de produção de informações e de saberes sobre o mundo. E assim que compreendemos a idéia de um jornalismo em invenção.A alusão explicita ao título da obra de Thomas Ferenczi ( 1993) retém a idéia que a prática jornalística se constrói pela diferenciação, ou pela ruptura com outras práticas e constitui uma área identificável. Mas o aspecto duradouro da fórmula que instaura a ruptura como ato contínuo, significa a impossibilidade de identificar o jornalismo de maneira exclusiva a uma essência que teria encontrado encarnação em uma profissão.

Jornalismo Comum ( Journalisme Ordinaire)

Em 2007 a REJ lançou novo programa em torno da noção de “ordinário”[10]. O desenvolvimento da internet, com seu cortejo de novas formas e modalidades ( blogs, sites coletivos e participativos, fóruns, redes sociais, jornais online, etc.) parece ter acelerado um movimento de singularização de usos midiáticos através de duas faces:

– a singularização da recepção realizada através de meios nômades, desligados do tempo, de conteúdos mais especializados, de vias de acesso mais fragmentados e personalizadas.

– a singularização da produção, graças a meios simplificados, a dispositivos variados, mais autônomos, muitas vezes gratuitos e mais acessíveis que os meios tradicionais de fabricação e de difusão da informação.

Este movimento não pode ficar restrito à época recente nem à internet; ele entra em sintonia com práticas pedagógicas de imprensa, de usos militantes políticos do jornal, de investimentos associativos nas rádios, do uso da fotografia e do vídeo para fins públicos.

Esta tendência é amplificada pelo uso crescente que as mídias de massa fazem das palavras singulares, incorporando-as como recursos em níveis variados no dispositivo editorial ( e-mail, debates, informações).

Mas não podemos nos limitar as constatações do que as mídias fazem da palavra do usuário e ignorar o que os usuários fazem das mídias. É preciso articular estes dois níveis, colocando a hipótese de uma terceira face deste movimento.

Pela colocação em sinergia da recepção e da produção, emergem novos cenários sociais ( dentro ou fora das mídias tradicionais) que através de formas variadas de apropriação participam da construção de identidades individuais e coletivas. Nesta hipótese, o “comum” do qual falava de Certeau e Giard (1983) é este interstício que permite que indivíduos, entre recepção e produção de mensagens, possam forjar um universo singular de sentidos, de conhecimento e de relação que escapa às produções de massa.

A ambição deste programa é prorrogar a reflexão em andamento, por meio de pesquisas sobre as modalidades e as consequências do aproveitamento dos usuários pela mídia, e pela inserção profissional de recursos gratuitos em um universo mercante.

O programa visa, ainda, levantar a questão do papel do amador nesta configuração midiática mutante. Este papel não é medido somente em vista da concorrência e do conflito com a dimensão profissional da atividade jornalística, mas também em função do lugar que esta atividade amadora toma na vida dos indivíduos e de como ela contribui com sua identidade social e participa das interações que eles desenvolvem no dia a dia além de seu impacto sobre a evolução do espaço público.

Diversas iniciativas empíricas foram lançadas simultaneamente pelos membros do REJ que se reúnem regularmente para compartilhar ideais em torno desta noção e de sua articulação com os resultados obtidos no campo. Uma nova publicação será lançada em breve resumindo as etapas de nossa pesquisa e lançando novos desafios ao grupo em renovação permanente.

Bibliografia

AUGEY Dominique, DEMERS François, TETU Jean-François. Figures du Journalisme ( Brésil, Bretagne,France, La Réunion, Mexique, Québec). Les Presses de l’Université de Laval, Quebec, 2008

BOURDIEU, Pierre. L’Emprise Du Journalisme, Actes de Recherche em sciences sociales, nº 101-102

CERTEAU M. (de) L’Ecriture de l’Histoire, Gallimard, Paris, 1975

FERENCZI,T. L’Invention Du Journalsime em France, Paris, Petite Bibliotheque Payot, 1993

FOUCAULT Michel. L’Archeologie du Savoir, Paris, Gallimard, 1969

NEVEU, Erik .Sociologie du Journalisme. Editions la Decouverte, Paris, 2001

RINGOOT Roselyne, UTARD Jean Michel. Le Journalisme en Invention. Nouvelles Pratiques, nouveaux acteurs. Presses Universitaires de Rennes, France ;2005

RUELLAN Denis . Le Professionalisme du Flou . Identité et savoir-faire des journalistes français. Presses Universitaires de Grenoble, 2003

SANT’ANNA, Francisco. Mídia das Fontes- o difusor do jornalismo cooperativo, Brasilia, Casa das Musas, 2005


[1] Béatrice Damian, Marianne Charrier, Roselyne Ringoot, Denis Ruellan e Daniel Thierry ( CRAPES, Rennes 1); Zélia Leal Adghirni, Luis Martins da Silva, Dione Moura, Francisco Sant’Anna, Fábio Henrique Pereira (Universidade de Brasília); Jean-Michel Utard ( Universidade de Strasbourg; valérie Cavalier-Croissant ( GRESEC-Universidade de Nancy 2; William Spano ( GRESEC- Universidade de Grenoble 3); Frank Rebillard, Anne-lise Touboul et Jean-François Tetu ( Universidade de Lyon 2); Valérie Jean-Perrier ( Universidade de Paris 4) ; Florence le Cam ( CRAPE, Universidade de Laval, Quebec) ; Nicolas Pelissier ( Universidade de Nice) ; Dominique Augey ( Universidade d’Aix-Marseille 3) ;Marie Christine Lipani ( Universidade de Paris 3) ; Marc-François Bernier ( universidade de Ottawa) ; François Demers, Alain Lavigne, Charles Moumouni e Thierry Watine ( Universidade de Laval, Quebec) ; Bernard Idelson, Nathalie Almar e Jacky Simonin ( Universidade da reunião).

[2] Participo deste grupo desde sua fundação, quando realizei programa de pós doutorado na Universidade de Rennes 1 com apoio da CAPES.

[3] Bolsas e finaciamento de passagens para congressos.

[4] “Journaliste um jour, journaliste toujours” ( pag. 131 a 145) , artigo publicado na obra “Figures du Journalisme”, organizado por François DEMERS, Jean-François TÊTU e Dominique AUGEY. PUL, Presses Universitaires de Laval/Quebec, janeiro 2008.

[5] Obra organizada por Roselyne Ringoot e Jean-Michel Utard – Presses Universitaires de Rennes, 2005

[6] Obra organizada por Dominique AUGEY, François DEMERS e Jean-François TÉTU- PUL, 2008

[7] Os primeiros integrantes do grupo de pesquisa SOJOR na FAC/UnB foram os professores : Zélia Leal Adghirni, Luis Martins da Silva e Dione Moura. Depois foram agregados os doutorandos Francisco Sant’Anna e Fábio Henrique Pereira. Ambos já concluíram seus estudos doutorais em co-orientação ( Brasil-França) e continuam ligados ao grupo. Atualmente temos o doutorando Ricardo da Silveira concluindo programa de doutorado em co-tutela com a universidade de Rennes 1.

A participação dos estudantes não se limita a alunos de pós-graduação. Desde que a UnB assinou o convênio com a Universidade de Rennes 1, cerca de 20 alunos de graduação, brasileiros e franceses, já fizeram intercâmbio

[8] Mídia das Fontes : um novo ator na cena jornalística brasileira – tese doutoral orientada pelo professor Denis Ruellan, Rennes 1, outubro 2007. O trabalho de Sant’Anna obteve o Prêmio Especial de Tese do júri do Senado francês em 2009 e foi publicado na França. O livro também está disponivel na internet no endereço: http://www.senat.fr/ga/ga82/ga82_mono.html#toc2

[9] Le journalisme em invention- nouvelles pratiques, nouveaux acteurs – org : Ringoot et Utard, PUR, 2005

[10] Do lado brasileiro, tivemos uma certa dificuldade para traduzir a expressão “journalisme ordinaire” porque o termo , me português, tem outra conotação. Optamos então por chamar de “jornalismo comum” este tipo de atividade jornalística que envolve não profissionais.