Metajornalismo: do discurso normativo à autorreferencialidade como condição ética

Madalena Oliveira

Résumé


  • O reconhecimento do poder do jornalismo como atividade constitutiva, isto é, como prática que age sobre o curso da história, conduziu a uma necessidade crescente de refletir sobre a ética dos procedimentos de recolha e tratamento da informação. Alvo de críticas frequentes enunciadas por escritores e intelectuais que, no século XIX, encaravam o jornalismo como uma literatura rafeira, os jornalistas passaram, a partir da segunda metade do século XX, a estar sob o olhar escrutinador da sociedade. Se a sua condição sempre foi, de algum modo, a de “vigilantes” dos poderes instituídos, a de uma espécie de “novos cães de guarda”, no dizer de Serge Halimi (1998), com o tempo, a consciência de que a vigilância também pode ser encarada como o exercício de um poder contribuiu para uma ideia de que também seria necessário “vigiar os vigilantes”. Quer na perspetiva profissional quer na perspetiva científica, desenvolveu-se então um discurso profundamente normativo em relação ao jornalismo e aos jornalistas. A definição de um estatuto profissional específico arrastou consigo a fixação de códigos de ética e deontologia que atribuíram a esta atividade um sentido de dever ser. Em consequência, alargou-se a toda a opinião pública a perceção de que tanto a conduta dos jornalistas como os efeitos da produção jornalística e da ação dos média se inscrevem num conjunto de normas reguladoras que explicitam os limites da atividade. Neste artigo, revisitamos o percurso que conduziu a uma perspetiva normativista do jornalismo. Por outro lado, reconhecendo que o jornalismo ganhou progressivamente valor-notícia, retomamos o conceito de metajornalismo para explorar uma via alternativa ao discurso convencional da norma. Com efeito, ao considerar o jornalismo sobre o jornalismo como uma prática autorreferencial, tomamo-lo no avesso do exercício normativista, deslocando o paradigma dos estudos jornalísticos de uma ética transcendental para uma ética situacional.

 

  • The recognition of journalism’s power as a constitutive activity—that is, as a practice that shapes the course of history—has heightened the need to reflect on the ethics of the procedures involved in the collection and construction of news. Whereas, in the nineteenth century, journalism was the target of criticism from writers and intellectuals who considered it as coarse literature, from the second half of the twentieth century onwards, journalists began to be scrutinized by society. If the role of journalists had always been, as it were, to monitor the powers that be, to act as kinds of “new watchdogs” in the words of Serge Halimi (1998), it appeared over time that surveillance could also be considered as an exercise of power, and as such, that the “watchers” needed to be “watched.” In this regard, a deeply normative discourse developed in both professional and scientific circles. A specific professional status was defined, bringing along codes of ethics which garnered journalistic practice with a sense of duty. As a result the general public perception is that the role of journalists, the effects of journalistic production and the way media act are all accountable to regulatory norms that set the boundaries of the activity. In this article, we revisit the history that led to the emergence of a normative perspective of journalism. While acknowledging that journalism has gained progressively in “news value,” we propose a return to the concept of meta-journalism in order to explore an alternative to the classical discourse of the norm. Indeed, by considering “journalism on journalism” to be a self-referential practice, we adopt an inverse approach to the normative exercise by shifting the paradigm of journalism studies from a transcendental ethos to a situational one.

 

  • La reconnaissance du pouvoir du journalisme comme activité constitutive, c’est- à-dire comme une pratique qui agit sur le cours de l’histoire, a fait croitre la nécessité de réfléchir sur l’éthique des procédures de collecte et de traitement de l’information. Cibles de critiques fréquentes énoncées par des écrivains et des intellectuels qui, au XIXe siècle, considéraient le journalisme comme une littérature bâtarde, les journalistes sont passés, à partir de la seconde moitié du XXe siècle, sous le regard scrutateur de la société. Si le rôle des journalistes a toujours été, en quelque sorte, celui de ‘vigie’ des pouvoirs institués, une espèce de « nouveaux chiens de garde », selon les mots de Serge Halimi (1998), une prise de conscience du fait que la surveillance peut également être considérée comme l’exercice d’un pouvoir, et qu’en cela, elle rend nécessaire de « regarder les vigies » est apparue. Tant dans les perspectives professionnelles que scientifiques s’est développé un discours profondément normatif par rapport au journalisme et aux journalistes. La définition d’un statut professionnel spécifique a entrainé la mise en place d’une éthique et de codes de déontologie qui ont associé à cette activité un sens du devoir être. En conséquence s’est répandue la perception, dans toute l’opinion publique, que tant le rôle des journalistes que les effets de la production journalistique et de l’action des médias font partie d’un ensemble de normes réglementaires qui régissent les limites de l’activité. Dans cet article, nous revisitons l’histoire qui a conduit à l’émergence d’une perspective normative du journalisme. Tout en reconnaissant que le journalisme a gagné progressivement en « news value », nous proposons de revenir au concept métajournalisme afin d’explorer une voie alternative au discours classique de la norme. En effet, lorsque l’on considère la pratique du journalisme sur le journalisme comme une pratique autoréférentielle, nous adoptons la démarche inverse de l’exercice normatif, en faisant glisser le paradigme des études du journalisme d’une éthique transcendantale à une éthique situationnelle.

Mots-clés


metajornalismo; normatividade; autorreferencialidade; ética situacional

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