Call for papers: Sobre jornalismo : « Pobreza e jornalismo : Práticas transformadas? »

15 mai 2015 par  
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Call for papers

Pobreza e jornalismo:

Práticas transformadas?

Data da publicação da chamada: 30 de abril 2015

Envio de propostas : 30 de junho de 2015

Prazo para submissão dos artigos: 30 de novembro de 2015

 

Coordenadores:

Viviane de Melo Resende, María Laura Pardo, Greg Nielsen

viviane.melo.resende@gmail.com – pardo.linguistica@gmail.comgregmarcnielsen@hotmail.com

 

 

De acordo com as Nações Unidas, há hoje, em todo o mundo, cerca de 100 milhões de pessoas vivendo nas ruas, 600 milhões vivendo em abrigos, e mais de um bilhão em condições precárias de habitação (ONU, 2011). A definição econômica convencional de extrema pobreza limita-se aos mais de 20% da população mundial que vive com menos de um dólar por dia, enquanto a definição de pobreza relativa, também limitada ao aspecto econômico, inclui outros 20% da população planetária que vive com menos de dois dólares e meio por dia (Davis, 2006). A pobreza não restringe-se, de modo nenhum, ao Sul Global. Pessoas vivendo em situação de pobreza, ou em situação de elevado risco de pobreza, no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, já chegam a mais de 40% da população em algumas regiões (Statistics Canada, 2011; Fréchet et al., 2011; OECD, 2012). Para se ter uma ideia, estima-se que três milhões de estadunidenses e 300 mil canadenses tornaram-se pessoas em situação de rua desde a recessão de 2008 (HUD, 2012; Weissman, 2013).

 

A pobreza, portanto, é um problema global grave, com consequências desastrosas sobre as vidas de milhões de pessoas no mundo. Entretanto, a cobertura do problema, incluindo a ação do que poderia ser classificado como instituições circundantes, tais como organizações não governamentais, intergovernamentais e internacionais, é distorcida, e suas dimensões são naturalizadas de várias formas em jornais, emissoras de televisão e outros veículos midiáticos (Pardo April 2008; Silva, 2009; Pardo, 2012). Mesmo reconhecendo que a mídia convencional discuta regularmente questões ligadas à pobreza – embora sem estabelecer relações causais entre as situações de pobreza e outras questões sociais mais amplas, ficando a representação restrita a uma lógica de aparências (Fairclough, 2003) -, há a questão de que raramente se dirige aos grupos sociais a que se refere. Em outras palavras, na maior parte das vezes jornalistas falam sobre quem vive em situação de pobreza, mas do ponto de vista de quem não experimenta a pobreza e dirigindo-se a quem tampouco experimenta a pobreza. Disso não resultaria que a compreensão pública das situações de exclusão torna-se limitada, mesmo quando a mídia parece clamar por soluções, supostamente em nome da democracia? A cobertura jornalística sobre a pobreza não estaria contribuindo para silenciar um grupo de atores sociais – curiosamente aqueles que são diretamente afetados pelo problema – e que se encontram excluídos tanto da representação midiática, como do acesso ao debate público sobre esse tema?

 

Esse número monográfico de Sobre Jornalismo convida autoras e autores e enviarem contribuições que busquem discutir a complexa combinação de forças que atuam na definição de uma ‘boa’ prática jornalística no tangente a esse corte temático, em abordagens que reconheçam a diversidade e as tensões das estruturas sociais e organizacionais e das práticas discursivas. Consistência editorial, atitudes jornalísticas, níveis de verificação requeridos, culturas profissionais diferem radicalmente entre mídias, mas ainda mais entre regiões do globo, o que traz uma grande diversidade às possíveis abordagens das relações entre jornalismo e pobreza. Onde quer que jornalistas levantem questões sobre pobreza, como os grupos sociais empobrecidos e as pessoas em situação de pobreza são representados e classificados? São representados como números e dados estatísticos? Como textos jornalísticos especulam sobre possíveis soluções para a pobreza? Como pessoas em situações de pobreza são imageticamente representadas? Ou, por que as imagens das pessoas mais pobres são tão apelativas no jornalismo? (Gans, 1995).

 

O jornalismo é uma forma específica de comunicação mediada, uma instituição descrita por Hartley (1996) como “o mais importante sistema textual do mundo”, devido à afirmação diária de ‘verdades objetivas’, à criação de audiências e à relação simbiótica com os sistemas político, econômico e social. Considerando essa centralidade, este volume de Sobre Jornalismo propõe explorar as inconsistências nessa relação e as dimensões múltiplas da representação jornalística da pobreza, tanto do ponto de vista do jornalismo tradicional quanto do jornalismo engajado.

 

Por um lado, a história e a crítica da economia política das organizações midiáticas na cobertura da pobreza ainda precisam ser escritas. Por outro lado, não se podem ignorar iniciativas transformadoras, no campo do jornalismo, que buscam incluir os atores e grupos representados também como audiência. O jornalismo cumpre um papel político importante quando ‘molda’ as notícias sobre a pobreza. Se é verdade que o jornalismo hegemônico tem limitado seu engajamento com a superação da pobreza ao enquadramento pelo viés da caridade, o que pode ser e de fato tem sido questionado, também é verdade que esse mesmo jornalismo tem focalizado muito pouco os problemas relativos à falta de acesso de parcelas significativas das populações a recursos materiais e simbólicos, e que tem estabelecido questionáveis relações entre pobreza e violência. Essa abordagem do tema frequentemente evita a investigação crítica. Mas é verdade também que o jornalismo alternativo – como nos street papers, na mídia comunitária, no jornalismo cidadão, na mídia social, bem como em sistemas públicos de televisão – tem estabelecido outras formas de relação entre jornalismo e pobreza. Várias formas de jornalismo de defesa civil têm estabelecido relações políticas diferentes quando se trata de se dirigir a atores e grupos sociais em situações de pobreza, por exemplo noticiando fatos em que grupos sociais em posições subalternas assumem posturas protagonistas na transformação de suas situações.

 

Reconhecemos que atores e grupos sociais marginalizados não constituem, em princípio, mercados atrativos para organizações midiáticas comerciais, e também sabemos que pesquisas há muito apontaram que jornalistas tendem a se mostrar relutantes em mudar rotinas e padrões narrativos (Tuchmann, 1978). A mídia noticiosa tem passado por transformações importantes, especialmente em seus modelos econômicos, nas duas últimas décadas, mas ainda precisamos examinar criticamente a ideia muito difundida de que as tecnologias digitais seriam o arauto da democratização da mídia. Pode ser verdade que as novas tecnologias e as práticas emergentes tenham transformado a audiência em produtora de conteúdo (Anderson et als.2014), mas isso permanece, para a maioria, apenas como possibilidade, e distante de qualquer garantia de produção de informação acessível e confiável, como muitas pesquisas têm sugerido (Jurkowwitz, 2014; Hass, 2007; Curran, 2010).

 

Como consequência, de uma perspectiva da produção de notícias, parece permanecer uma dualidade entre, de um lado, a rotina da cobertura jornalística (tanto em organizações comerciais quanto nas não comerciais), que enfatiza práticas padronizadas (com a sobre representação de fontes corporativas, externas e governamentais, e a seleção de fatos noticiosos com base em valores-notícia tradicionais), e, do outro lado, movimentos sociais promovidos por outros atores que impactam sobre a agenda pública e sua mediação (Silva, 1998), com potencial para impactar também sobre as práticas jornalísticas. Uma abordagem dessas interações e seus efeitos sobre o jornalismo e a representação jornalística da pobreza é tarefa ainda por fazer.

 

Contextos sócio-históricos influenciam compreensões e orientam, no fazer jornalístico, a escolha de audiências, o emprego de tons mais ou menos emotivos, a seleção de fontes internas ou externas, os julgamentos morais. Por outro lado, as práticas jornalísticas também influenciam os modos como as audiências percebem a vulnerabilidade social e reagem a ela, os modos como pessoas em situação de pobreza são identificadas e como (ou se) as audiências se identificam com essas pessoas e com as questões sociais (Resende , 2012). Uma vez que a relação entre linguagem e sociedade é de mão dupla, esses mesmos processos são forjados em práticas sociais anteriores. A ‘forja’ de notícias (Benson, 2013) sobre pobreza por organizações midiáticas, seus contextos geopolíticos, culturas profissionais e relações com o poder tornam-se, então, objeto de interesse para pesquisas em diferentes disciplinas, que incluem, ao lado do Jornalismo, Estudos Culturais, Economia Política, Sociologia, Antropologia, Demografia, Estudos do Discurso e Ciências Políticas, entre outras. É nesse espírito que este dossiê multidisciplinar convida pesquisadoras e pesquisadores dos diversos campos a submeter artigos de pesquisa envolvendo jornalismo e pobreza.

 

Orientações do dossiê

 

No escopo deste dossiê, muitas questões são pertinentes:

 

– Em que escala devemos situar a cobertura da pobreza, em termos geopolíticos? Localmente? Nacionalmente? Em um eixo Norte-Sul? Globalmente?

 

– Como textos jornalísticos representam, nomeiam, classificam as variadas situações de pobreza? Que significados diferentes tipos de jornalismo atribuem à pobreza? Que efeitos potenciais podem ser associados a esses significados?

 

– Pessoas em situações de pobreza encontram espaço para a enunciação de suas vozes em textos jornalísticos? Como essas vozes se representam na mídia hegemônica e/ou na mídia alternativa (street papers, mídia comunitária, jornalismo de defesa civil etc.)?

 

– Grupos em situações de pobreza são representados em papéis ativos ou passivos? Suas vozes são representadas? De que modos?

 

– Quais são os atores sociais envolvidos na cobertura jornalística da pobreza? Como sua participação é negociada no campo? Quais são os papéis representados por atores sociais externos ao campo do jornalismo (governos, ONGs, acadêmicos, organizações intergovernamentais e internacionais etc.)?

 

– Quais são as audiências às quais os textos jornalísticos se dirigem? Há lacunas entre atores e grupos sociais representados e as audiências em potencial?

 

 

Solicita-se confirmar o interesse de participar do dossiê até o dia 30 de junho de 2014 por meio do envio de um texto de duas páginas aos coordenadores do dossiê:

viviane.melo.resende@gmail.com

pardo.linguistica@gmail.com

gregmarcnielsen@hotmail.com

 

Os textos podem ser redigidos em português, inglês, francês ou espanhol.

 

Os artigos, de 30 a 50 mil caracteres (com espaço), devem ser encaminhados até o dia 30 de novembro aos coordenadores do dossiê.

 

O método utilizado para a seleção dos artigos é a avaliação cega pelos pares. Os artigos propostos devem ter um referencial teórico, uma metodologia de pesquisa e um material de análise.

 

Referências

 

Anderson, C.W., Emily Bell, and Clay Shirky. 2014. Post-Industrial  Journalism: Adapting to the Present. A report to the Tow Centre for Digital Journalism. New York: Columbia Journalism School. , pp. 1-121.

Benson, Rodney (2013). Shaping Immigration News: A French-American. Cambridge University Press.

Curran, James. 2010 The Future of Journalism. Journalism Studies. Vol. 11, No 4, 464-476.

Curran, James. 2011. Media and Democracy. London: Routledge.

Davis, Mike. (2006) Planet of Slums. London: Verso.

Fairclough, Norman. (2003). Analysing discourse: textual analysis for social research. London: Routledge.

Fréchet, Guy, Danielle Gauvreau& Jean Poirier (eds.). (2011).  Statistiques sociales, pauvreté et exclusion sociale: perspectives québécoises, canadiennes et internationales. Publication en hommage à Paul Bernard, Centre interuniversitaire québécois de statistiques sociales (CIQSS) et Ministère de l’Emploi et de la Solidarité sociale.  Montréal:  Presses de l’Université de Montréal.

Gans, Herbert. (1995) The War Against the Poor: The Underclass and Anti-Poverty Policy . New York: Basic Books.

HUD (United States, Department of Housing and Urban Development). (2012). Annual Homeless Assessment Reports to Congress. U.S.

Jurkowitz, Mark. (2014) The Growth in Digital Reporting: What it means for Journalism and News Consumers. Pew Research Journalism Project. http://www.journalism.org/2014/03/26/the-growth-in-digital-reporting/

OECD. (2011). Divided We Stand. Why Inequality Keeps Rising. http://www.oecd.org/document/51/0,3746,en_2649_33933_49147827_1_1_1_1,00.html

Pardo Abril, Neyla. (2008). ¿Que nos dicen? ¿Que vemos? ¿Que és… pobreza? Bogotá: Universidad Nacional de Colômbia.

Pardo, María Laura. (2012). Asociación discursiva entre pobreza y delito em um programa televisivo reproduzido em YouTube, en N. G. Pardo Abril. Discurso em la web: pobreza em YouTube. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, pp. 270-294.

Resende, Viviane de Melo. (2012). Representação discursiva de pessoas em situação de rua no Caderno Brasília: naturalização e expurgo do outro. Linguagem em (Dis)Curso, 12: 439-465.

Silva, Denize Elena. (2009). Representações discursivas da pobreza e gramática. D.E.L.T.A., 25: 721-731.

Silva, Luiz Martins da. “Imprensa, subjetividade e cidadania”. São Paulo: artigo apresentado na VII Compós, PUC-SP, 1998.

Tuchman, Gaye. 1978. Making the News. New York: Free Press.

UN (United Nations). (2013). Habitat. 100 million homeless  in  world.  Most are women and dependent children. http://www.un.org/Conferences/habitat/unchs/press/women.htm.

Weissman, Eric. (2013) Spaces, Places and States of Mind: a pragmatic ethnography of liminal critique. PhD Dissertation. Montreal: Concordia University.

 

 

 

About Journalism – Sur le journalisme – Sobre jornalismo…

… is a space where historically shaped intellectual traditions and interests in journalism studies meet. The field of journalism studies has developed with different epistemologies, approaches and methods that inform national research traditions. The journal fosters the encounter of these divergent approaches via an international editorial board and active solicitation of submissions from international scholars. In a context of globalization and relative homogenization of media systems and journalistic practices, the journal also focuses on the similarities and differences between journalistic and scholarly cultures.

The journal is dedicated to research. A committee of four editors responsible for facilitating exchanges works with editorial boards that include scholars from Europe, Latin America, and North America. The members of the editorial boards are figures widely known for the quality of their research and the international and intercultural  orientation of their approaches to journalism studies.

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